Senhores da Quinta da Devesa - Reis Maia, uma família desconcertante.

 A quinta da Devesa é bastante antiga, as Inquirições de 1258 já lhe fazem referência. Várias famílias tiveram a posse da mesma ao longo dos séculos. Mas vamos falar aqui da família que a possuiu a partir do ano 1920, a família Reis Maia. Houve o Reis Maia pai, de que ninguém da nossa época actual se lembra e o Reis Maia filho, este sim, bastante conhecido e falado pelas gerações actuais de 70 anos para cima.

José Marques Barbosa dos Reis Maia (o pai), nasceu em Vila de Punhe no dia 4 de outubro de 1885 e faleceu no Porto na rua de Costa Cabral, onde residia nos seus últimos anos de vida e onde tinha escritório de advocacia, no dia 28 de fevereiro de 1935. Era filho de Domingos Afonso dos Reis Maia, natural de Vila de Punhe, carpinteiro de profissão, e de Maria Marques Barbosa natural de Alvarães.

       Casou em Lovaina na Bélgica, com Berta Meunier, nascida a 7 de janeiro de 1888 em Nodebais, Brabant-Valon, diocese de Malines, filha de de Felicien Meunier e de Marie Elizabeth Jeanquart, e faleceu em S. Bento da Várzea em 15 de abril de 1959. Tiveram quatro filhos, Maria Elsa, Maria Berta, Augusto e Maria Lídia, por ordem de nascimento.

         José dos Reis Maia estudou Teologia em Braga e depois formou-se em Direito pelas universidades gregoriana de Roma, de Lovaina e de Coimbra. Dizem que era um fora de série intelectualmente, de tal modo que, num só ano fez o curso completo dos liceus e o de Direito na Universidade de Coimbra. Em novembro de 1910 abriu escritório de advocacia em Barcelos, cidade onde passou a residir desde criança. Foi advogado, jornalista, escritor e mais tarde formou-se em medicina, uma antiga paixão, embora nunca tenha chegado a exercer oficialmente. Foi senhor da Casa da Pena em Gamil, Barcelos, que depois vendeu adquirindo uma casa senhorial em S. Bento da Várzea, também em Barcelos, e por volta de 1920 adquiriu a Quinta da Devesa em Freixo. 

      Foi ainda Presidente da Direcção dos Bombeiros Voluntários de Barcelos entre 1914 e 1916, Presidente da Assembleia barcelense entre 1919 e 1925, fundou a Gazeta Judiciária, fundou em 1911 o semanário "O Barcelense" que durou apenas 6 semanas, colaborou nos semanários  "Era Nova" de Barcelos, nos portuenses "A Palavra", "Diário do Porto", "O Debate" e "O Primeiro de Janeiro" assim como em outros periódicos de Lisboa e Coimbra. Foi também sócio correspondente da Academia de Ciências de Portugal, Presidente da Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos e Administrador do "Banco de Barcelos".

       Escreveu alguns livros, como por exemplo, "Direito Geral das Obrigações" em 1926, "O Embargo da Companhia Carris de Ferro do Porto à Linha da Boavista-Trindade em 1931 e o romance "Honra de Mulher" em 1918, notável trabalho de psicologia amorosa:










Em cima, no canto esquerdo uma foto de José dos Reis Maia acompanhada de uma pequena síntese do livro "Honra de Mulher".


       José dos Reis Maia viajou acompanhado da família e dos filhos pela Europa em 1919, nomeadamente, pela Alemanha, Inglaterra e Holanda. Passava grandes temporadas na casa de S. Bento da Várzea e na Quinta da Devesa em Freixo, de modo alternado, especialmente nos meses de verão. A partir do ano 1929 fixou residência no Porto, depois de se formar em medicina, e por lá faleceu no dia 28 de fevereiro de 1935. 

        O seu único filho varão, Augusto Meunier dos Reis Maia ficou com a Quinta da Devesa e estabeleceu-se definitivamente na mesma a partir de 1950. Era um personagem verdadeiramente desconcertante. Conta-se, e o meu avô paterno contava-o muitas vezes, pois conheceu-o bem, que era um "desadaptado", um "não alinhado" com o sistema e modos de vida vigentes. Durante o dia ninguém o via, as refeições eram-lhe servidas por uma espécie de postigo e muitas eram as pessoas, movidas pela curiosidade de um ser tão estranho, que se deslocavam à Quinta para o tentarem ver. Mas sempre em vão. Só saía de casa pela noite, a cavalo e todo embuçado para não ser reconhecido por ninguém. Chegou a abrir um café no Largo da Feira, na actual casa do senhor Mário Gonçalves, mas pouco durou, pois a pessoa que por lá estava encarregue de dar andamento ao negócio era manifestamente incompetente, segundo dizem, e perante o desinteresse generalizado do patrão era impossível o negócio florescer. 
       A única pessoa que conseguiu subtraí-lo a esses devaneios foi uma criada da casa, Rosa Santiago, irmã do falecido Amândio Santiago e Manuel Raposo (falecidos). Aos poucos Rosa Santiago conseguiu entrar no quarto para lhe servir as refeições e para limpezas e também, para algo mais, pois, Augusto Reis Maia apaixonou-se pela mesma e acabariam por casar. Primeiro pelo Civil, acto desempenhado pela falecida Laurinda Fernandes Carvalho de Araújo, mas num primeiro momento Augusto não queria que ela lá fosse, mas a Dona Laurinda não cedeu e acabou por lá ir realizar o dito casamento. A própria contou a aventura no seu livro "Monografia de S. Julião de Freixo" a páginas 58 e 59. De seguida, o casamento religioso, digno de um filme de suspense e mistério, pois casaram em dia de semana à Meia-Noite, apenas com a presença do padre e dos padrinhos. Pouco após, por dívidas, vendeu a Quinta da Devesa à família Monteiro Ribas (ainda hoje possuidores da Quinta), e comprou uma casa em Midões, Barcelos, onde acabaram o resto dos seus dias.   





       

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