Os marcos quinhentistas da freguesia.

 Durante uma boa parte do século XVI, especialmente, nos inícios desse século entre 1500 e 1532, o castelo de Curutelo esteve na posse do duque D. Jaime IV sobrinho do rei português D. Manuel I. Este processo teve a ver com o final da dinastia dos Gomes de Abreu, cujo último senhor efectivo, D. Pedro Gomes de Abreu, o chamado 5º morgado de Coucieiro (e de Curutelo), teve várias pendências em tribunal pelos muitos crimes que cometeu. Como tal, foi obrigado a avultados gastos e uma das formas para fazer face aos mesmos foi alienar o castelo de Curutelo ao duque D. Jaime. 



Marco existente na mata de S. Cristóvão, um dos mais de 24 marcos (hoje só existem cerca de 15) que delimitavam as propriedades e terrenos do castelo de Curutelo, terrenos esses que se espalhavam pelas freguesias de Ardegão, Cossourado (pela via da mata de S. Cristóvão), Poiares, por parte do vale de Paçô até chegar a Navió. Se repararem o marco tem uma letra "B", que corresponde à inicial da casa de Bragança, sinal e prova da pertença dos terrenos do castelo à nobreza ducal associada ao reino português da altura. 

Como puderam ler mais acima, os terrenos do castelo de Curutelo espalhavam-se por várias freguesias, nomeadamente a Ardegão, deste modo, de onde acham que surgiu aquela velha teoria e narrativa de que a capela de S. Cristóvão está implantada em terrenos que pertencem a Ardegão? assim como outros locais, tal como partes do Gadunho, a Fonte Grande e o próprio lugar da Regueira? Todos esses locais foram pertença dos senhores de Curutelo e, a própria capela de S. Cristóvão, sofreu obras profundas de restauro e aumento precisamente na época manuelina, entre 1510 e 1525.

Polémicas à parte e só para os tais que afirmam coisas sem nexo e sem base de sustentação (eu tenho as provas, quem quiser ver é só pedir), ainda antes da anexação de freguesias, andaram certas pessoas por aí em certos locais a forjar marcos falsos, numa tentativa coxa de querer fazer da freguesia de Ardegão algo que nunca foi nem poderia sê-lo. Não me obriguem a ressuscitar o tema...



Outra perspectiva do marco.


No castelo de Curutelo, isto é, não exactamente dentro do castelo mas nos terrenos envolventes, existem 5 marcos parecidos com o mostrado acima, os restantes 10 estão espalhados na mata de S. Cristóvão (incluindo o que já vimos atrás) e no antigo lugar de Vilar de Rei, hoje pertencente a Navió mas até meados do século XVIII pertencente a Freixo. Depois de meados do século XVIII passou a ser mieiro, isto é, comum às freguesias de Freixo e Navió e passou definitivamente à órbita de Navió nos inícios do século XX. Segundo se apurou tal processo deveu-se ao facto de pela páscoa a distância a ser percorrida para levar a cruz a esse local era considerável, e como se argumentava que era longe, deixou de ser considerado lugar da freguesia. A seguir mostram-se os marcos de Vilar de Rei que são 2:







O primeiro marco não está no seu local original, foi deslocado, mas sabe-se por documentos existentes que estaria originalmente a cerca de 100 metros de onde hoje está implantado. Também aqui se pode ver na perfeição a letra "B" gravada no mesmo. Junto do local original onde estaria implantado, ainda são visíveis os restos de uma marco antiquíssimo, um dos 9 que delimitava o reguengo do rei D. Afonso III (daí o topónimo, Vilar de Rei, de "villa medieval"). Um reguengo era uma propriedade medieval, um conjunto de terras cuja parte da produção revertia a favor da coroa.


O segundo marco parece estar no seu local original, e também aqui muito próximo, existem vestígios de um dos antigos marcos do reguengo do rei D. Afonso III assim como uma estrutura antiga que ainda não se conseguiu perceber muito bem do que se trata. 


Os restantes marcos em falta, que são 9 dos originais 24 que existiam, não se sabe o que lhes poderia ter acontecido, mas não é difícil antever que devido às extremas pressões que existiram sobre terrenos e propriedades os mesmos levaram descaminho. Num próximo post voltar-se-á a abordar o assunto.


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