As origens míticas da Casa de Curutelo
Casa de Curutelo
As origens:
Esta casa é antiga, muito certamente uma das mais antigas do espaço limiano, no entanto, a sua história é mal conhecida apesar de ter muito para contar.
Segundo a tradição, as origens míticas desta casa estão fundadas em relatos que de modo algum podem ser provados, pois não existem documentos, pelo menos conhecidos, que possam confirmar tais origens. Para além do facto de muitos genealogistas dos séculos XVIII e XIX terem "romantizado" certas linhagens familiares. O mito em si, não é refutável, apenas se pode concordar com ele ou não. Estando a origem de qualquer mito fundada para além do espaço e tempo normais, o mito reporta-se não apenas ao que aconteceu, mas também, ao que poderá acontecer.
As origens míticas desta casa dizem que a primitiva ocupação do sítio se iniciou com Alarico II (viveu entre 458 e 507) [ver nota 1]
, rei visigodo que reinou entre 484 e 507, ano de sua morte acontecida em Vouillé perto de Toulouses no Sul de França, à época, ainda não existia oficialmente o país França e o próprio território de Toulouses era independente dos restantes reinos que formavam a França primitiva. É possível dar crédito a este relato? Difícil dizer, pois não parece muito verosímil que um rei visigodo tenha construído uma casa fortificada em Freixo. A não ser que o dito rei por aqui tenha passado e de tal forma se tenha apaixonado pelo local, resolvendo aqui construir uma casa fortificada.Perante ausência documental, esta origem parece ser fábula, disse bem, parece, porque não há modo de provar tal asserção, nem pela positiva nem pela negativa.
Continuando, sabe-se que Alarico II era asturiano de nascença, tendo conquistado as terras de Riba de Neiva onde se incluía a localidade de Freixo, tendo depois, como já dito atrás, construído uma casa fortificada nesta terra, num local que depois passaria a ser conhecido como Curutelo. Diz-se, sempre segundo a narrativa mítica, que aí lhe nasceu um filho, que teria de ser bastardo, pois dos seus três filhos conhecidos e registados pela história, o mais velho morreu novo, solteiro e sem descendência, o segundo sucedeu-lhe no trono e não parece nada que se tenha fixado em Curutelo, e a última filha casou com o rei franco Teodorico vivendo na região do Languedoque, também no Sul de França.
Perante esta narrativa mítica a ocupação do sítio é mais antiga do que o ano 800 como até aqui admitido [ver nota 2] em diversas fontes. É sabido e certo que o ano 800 corresponde à fundação da muralha defensiva [ver nota 3] onde existiria uma casa primitiva, com um tal de Alarico que, seria eventualmente, um descendente afastado de Alarico II. Se realmente este relato tiver algum fundo de verdade, a fundação desta casa é muito antiga, contemporânea dos primeiros reis visigodos na Península Ibérica.
O mito continua dizendo que um descendente do Alarico do ano 800, de seu nome Landulfo ou Landugo de Ordonhes teve uma filha, D. Urraca de Landulfes [ver nota 4], senhora de Curutelo e casada com D. Nuno Nudiz ou Mides, segundo outras versões [ver nota 5], aquando da conquista de Coimbra aos mouros sob o comando de Fernando Magno no ano de 1064.
Há aqui algumas incongruências a serem abordadas. Em primeiro lugar, não sabemos se a personagem Urraca Landulfes existiu, faz parte da narrativa mítica, mas houve de facto um casamento entre a senhora de Curutelo e o Nuno Nudiz ou Mides acima referido que daria origem à linhagem de Curutelo propriamente dita. Em segundo lugar, a data de 1064 corresponde de facto à conquista de Coimbra aos mouros, mas o casamento não poderia ter sido nessa data pois, o Nuno Nudiz ou Mides nasceu por volta do ano 1120 e o filho do casal, o primeiro a usar o apelido Curutelo, D. Simão Nunes de Curutelo, nasceu em torno do ano 1160 e era o 2º filho.
Este Nuno Mides teve pelo menos dois irmãos mais velhos, Paio Mides, cujos seus descendentes ajudaram a fundar o mosteiro beneditino de São Romão do Neiva e João Mides que foi Dapifer [ver nota 6] da corte portuguesa entre 1140 e 1149. Seriam estes Mides bisnetos de Fromarico Cendoniz, um nobre asturiano que foi uma das testemunhas do estabelecimento dos limites da Arquidiocese de Braga entre os anos 910 e 911 e igualmente nos limites dos territórios diocesanos de Braga e de Dume, personagem referido por Avelino de Jesus Costa e também por José Mattoso. Há quem os faça filhos de um Munio Nunez [ver nota 7], que mais não foi do que o 1º conde da Castilha, Munio Nunez de Roa que viveu entre 865 e 912, mas como as datas estão completamente desfasadas, é impossível esta filiação. Poderia eventualmente ter existido outro Munio Nunez em data posterior, mas como o relato mítico não nos fornece elementos sólidos, nada mais podemos dizer.
Voltando ao Fromarico acima falado, sabe-se que era possuidor de uma "Villa" [ver nota 8] na região do Neiva, onde mais tarde, os seus descendentes, construíram o mosteiro de S. Romão do Neiva. Esta família (dos Mides) também aparece referida num documento da fundação de São Salvador da Torre [ver nota 9], erigido pelo conde Paio Bermudes mesmo no final do século X.
Perante tantas incongruências, separar a lenda da realidade é exercício extremamente complexo, não obstante, a primitiva ocupação do sítio Curutelo deve datar de pelo menos dos inícios do século IX, ano 800 em diante, ou até mesmo de meados do século anterior, anos 750 em diante.
Num próximo post falar-se-á da torre.
Notas:
1 - Esta informação aparece no Geneall (site de genealogia) num tópico sobre os Laras de Monção. Não se sabe se se pode dar crédito a esta informação.
2 - Crisóstomo; 2013, Araújo; 1982. Ambos os autores se enquadram nas informações existentes e emanadas de outros autores. Apesar de tudo, é mais ou menos consensual que o ano 800 corresponde efectivamente à fundação da muralha, o elemento mais antigo do actual castelo de Curutelo.
3 - A pedra da muralha quando comparada com a do castelo não deixa dúvidas quanto à maior antiguidade da muralha relativamente às restantes construções do local.
4 - Crisóstomo; 2013 e Araújo; 1982. Tal como na nota 2, os autores seguem autores mais antigos, embora com a ressalva de que não existem documentos oficiais, conhecidos, sobre o assunto.
5 - Num trabalho intitulado "Gerações Medievais do Paço de Curutelo - dos Curutelos aos Viegas" aquando das Actas do Congresso de Estudos Medievais realizadas nos Arcos de Valdevez em 2023, da autoria do Doutor Miguel Ayres de Campos Tovar e do mestre Gonçalo Vidal Palmeira, ambos se referem a esta família como Mides e não Nudiz, nome que segundo os próprios foi adulterado.
6 - Um Dapifer era um cargo dos primeiros tempos da monarquia, cuja função passava por intervir nas questões governamentais, em questões legislativas e na administração da justiça.
7 - Fernandez, Moralejo e de La Pena; Crónicas Asturienses, Oviedo- Universidade, 1985, p. 106
8 - Costa, Avelino de Jesus; O Bispo D. Pedro e a Organização da Arquidiocese de Braga - Irmandade de São Bento da Porta Aberta, 2ª edição, Vol. I, 1997-2000, pp. 209 e 215.
9 - Palmeira e Tovar; 2023 e também Cruz, D. Marco da - Crónicas do Mosteiro de São Salvador de Grijó - Citcem, Porto, 2023, p. 58.
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